Figuras célebres

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CONVOCATÓRIA

Nos termos do Artº 15 dos Estatutos, convoca-se a Assembleia Geral para o dia 16 de Março de 2007, pelas 20h30m, numa sala da Escola Secundária Diogo Gouveia, com a seguinte ordem de trabalhos:

   1 - Apreciar e aprovar o Relatório e as Contas da Direcção, referentes ao ano 2006.

   2 - Proceder à eleição dos Corpos Gerentes para o período de 2007/2008.   

   3 - Outros assuntos.

Página actualizada em 31-03-2007

   0 alentejano Brito Camacho, nascido em Rio de Moinhos (Aljustrel), foi uma figura destacada da vida portuguesa, nos alvores do Século XX, como ministro, médico, escritor e jornalista. Recebeu parte importante da sua formação no Liceu de Beja. É essa memória que recuperamos, numa altura em que o Liceu comemora 150 anos de existência.

   Manuel de Brito Camacho nasceu no monte das Mesas, arredores da aldeia de Rio de Moinhos, a alguns quilómetros da vila de Aljustrel, em 1862, e faleceu em 1934. Tendo abraçado a ideologia republicana, participou intensamente na propaganda contra a Monarquia.
     Implantada a República, foi ministro do Fomento e dirigente do Partido Unionista, de que fora fundador. Em 1920/22 desempenhou o cargo de Alto Comissário da República em Moçambique. Político importante da I República distinguiu-se, também, como jornalista, tendo fundado o jornal 'A Luta" (1906) de que foi director.
     No dizer de Oscar Lopes - responsável por um volume de “Memórias e Narrativas Alentejanas de Brito Camacho” -, das muitas páginas que este autor escreveu, tem particular interesse as narrativas, os tipos, os quadros descritivos do seu monte natal das Mesas, da aldeia de Rio de Moinhos, e também de Montes Velhos e Jungeiros, da vila de Aljustrel, e mais geralmente, do Baixo Alentejo rural.
     Dessa ruralidade dá conta, aliás, os próprios nomes de algumas das suas obras, como os Quadros Alentejanos, Gente Rústica, Por Cerros e Vales...
     É tão forte a presença do campo nos seus escritos, que Aquilino Ribeiro, no estudo que fez da vida e obra deste alentejano, deu o título sugestivo de “Brito Camacho nas Letras e no Seu Monte”.
     Ao recordarmos aqui Brito Camacho, não o fazemos pela sua qualidade de figura grada da I República, nem pela sua faceta de jornalista influente, nem tão pouco pela sua qualidade de médico, que também foi. Interessa-nos, sim, a sua condição de estudante do Liceu de Beja, no século XIX, as descrições que do ambiente estudantil fez e do quadro que traçou da educação no Alentejo, no último quartel do século passado.
     Em algumas das suas obras, nomeadamente em “De Bom Humor” e “Gente Vária”, deixou Brito Camacho algumas referências ao seu tempo de estudante.

No Liceu, em Beja
 

     Feita a instrução primária, com mestres em casa, no Monte, a que se seguiu a frequência da escola de Rio de Moinhos e posteriormente a de Aljustrel, armado de alguma sabedoria, "já sabendo um bocadinho de Gramática, arranhando menos mal o Francês, lendo com desembaraço os jornais e nas contas dando sota e ás aos mais pintados como relata em Quadros Alentejanos, o estudante está pronto para nova etapa, mais difícil - o Liceu de Beja.
     Recordando a ida para Beja, escrevia Brito Camacho, em Gente Rústica, muitos anos depois: "Um dia meu pai, homem de letras gordas, rompeu no excesso de pregar comigo em Beja para estudar, para ser gente (...).Minha mãe, coitada, menos atenta que meu pai aos benefícios da instrução, o que não queria era que me separassem dela, levando-me para Beja lá nos confins do mundo, a mais de uma hora de caminho (...). Assentou-se em que eu ia para Beja alguns dias antes de abrirem as aulas, e na antiguidade a que me estou reportando, o ano escolar dos liceus principiava, invariavelmente, em cinco de Outubro. Não houve parente, amigo ou conhecido na freguesia de quem eu não fosse despedir-me, recomendando-me minha mãe que dissesse, feitos os cumprimentos: "Venho perguntar se querem alguma cousa para Beja, e lá têm um creadinho às suas ordens. Que bom tempo!"
     Este pequeno excerto dá bem conta de realidades curiosas. Desde logo a distância a que Beja aparecia, mesmo para quem vinha de Aljustrel. Depois a posição da mãe (das mães?) face ao afastamento do filho para terras distantes e necessariamente para um mundo novo As boas regras de educação também lá estão com os termos da despedida – “O creadinho às ordens”.
     A 5 de Outubro, ao tempo data de início das aulas nos Liceus, e que se manteve até há poucos anos, temos o nosso estudante em Beja. Do ambiente estudantil deixou-nos também algumas impressões: “No tempo em que nós, eu e o Baptista, éramos estudantes do Liceu, em Beja, havia uma grande má vontade dos futricas para com os corvos e dos corvos para com os futricas. Corvos chamavam os futricas aos estudantes, por causa da vestimenta negra - capa, batina e gorro. Era rara a noite em que entre estes guelfos e gibelinos não havia cenas de pancada, não entrando em exercício mais do que o pé e o punho, quando chegavam às mãos. Às vezes o duelo era à pedrada, raramente aparecendo a bengala, manejada por algum diabo mais esturrado, futrica ou estudante. O Campo de Oliva, por trás do Quartel de Infantaria 17, foi teatro de muitas dessas pelejas, de que os contendores saíam com mais galos que ferimentos”, descreve no livro De Bom Humor.

Retrato de uma época

     Eis aqui outro manancial de informações sobre o ambiente estudantil em Beja, no último quartel do século XIX. Assinale-se o traje do estudante - a capa, a batina e o gorro - que conduziu no nome de corvos. Essa designação caiu há muito em desuso, embora tenha deixada rasto. Em Évora, o jornal escolar do antigo Liceu tinha o nome de “O Corvo”. O privilégio de envergarem capa  batina fora, aliás, concedido aos estudantes de Beja pelo Rei, por volta de 1870, quando o Liceu se instalou na Casa da Porta de Ferro à Rua do Esquível.
     Quando chegou a Beja, o jovem Brito Camacho não tinha ainda a indumentária académica - capa, batina e gorro - "mas a Reitor era muito bom homem e o primo Camacho faria com que ele lhe permitisse frequentar as aulas, par alguns dias, à futrica", refere em Gente Vária.
     O uso de capa e batina, era ainda relativamente frequente nos anos Sessenta, mas foi perdendo actualidade. Do que não há rasto, é da rivalidade entre estudantes e não estudantes que, segundo Brito Camacho, existia no seu tempo de aluno. Curiosa é também a referência à bengala, cujo uso seria corrente. Bengala e chapéu, mesmo para os jovens, era parte da indumentária.
     Temos uma descrição do ambiente do Liceu, redigida, é certo, por um aluno que se matriculou muito mais tarde, já em 1905, mas que julgamos não ser muito diferente do ambiente vivido por Brito Camacho: "Ia transpor pela primeira vez o portão de ferro do velho liceu.(...) Julguei-me perdido entre homens de bigode trajando capa e batina, militares ostentando suas estrelas reluzentes, estudantes com aspecto de senhores a quem a chapéu de coco dava certo ar de distinção, umas dezenas de rapazes de aparências muito diferentes e que constituíam o grande efectivo, além de, e como extraordinária excepção, uma menina (...). A passagem dos professores assustou-me. Eram muitos e alguns tinham cara de quem não sabe sequer sorrir". O retrato é apresentado por J. C. Duarte da Silveira, em Velhos e Novos, uma publicação da Festa dos Antigos Alunos, datada de 1950.
     Não sabemos se as primeiras impressões do Liceu foram idênticas às descritas por este aluno mais novo. O que sabemos é que o jovem estudante, e é ele próprio quem o afirma, com receio de chumbar, terá estudado afincadamente, apoiado, também, por uma promessa feita a Nossa Senhora do Castelo, de Aljustrel, sua madrinha. Tudo somado, o resultado foi passar em todos os exames.
     No segundo ano, a mesmo receio, igual estudo e renovação da promessa à Santa. Idênticos resultados nos exames. No terceiro ano... tinha o rapaz uns 16 anos, apareceu em Beja uma companhia espanhola de cómicos ambulantes, a companhia Rosales, formada por um espanhol de má catadura mas também por duas raparigas, "uma rechonchuda e bonita e outra um pouco mais velha, nem feia nem bonita" observa Brito Camacho no livro Bom Humor, acrescentando:
     "Tomei gosto pelo teatro; a estudar os papéis em vez das 1ições, cheguei ao fim do ano quasi in albis em todas as cadeiras".
     Apesar de uma mais valiosa promessa à sua Madrinha, as resultados foram os esperados: chumbado em toda a linha!

Excerto alargado de um texto elaborado pelo professor Francisco Rosa Dias, docente da Escola Secundária Diogo de Gouveia e publicado no Alentejoilustrado do “Diário do Alentejo” de 25 de Abril de 2003.

   Coronel António Maria Baptista

De aluno travesso do Liceu de Beja a primeiro-ministro de Portugal

     António Maria Baptista nasceu em Beja e frequentou o Liceu nos finais dos anos Setenta e início dos anos Oitenta do século XIX, quando este funcionava na Rua do Esquível, no chamado Palácio dos Maldonados e era conhecido como o Liceu da Porta de Ferro.
     Era filho de Francisco António Baptista, primeiro sargento do Regimento de Infantaria 17, e residiu na Rua Ancha, n.º 9, conforme consta nos termos de matrícula. Foi contemporâneo, amigo e condiscípulo de Brito Camacho.
     Na sua obra De Bom Humor faz o autor alentejano algumas referências ao ambiente estudantil, em Beja, e menciona também este seu condiscípulo, deixando-nos alguns traços do seu carácter e do seu perfil de aluno.
    

Os tempos de estudante, em Beja                                                                                                                                              Aspecto marcante do ambiente estudantil era a rivalidade entre os estudantes, Os "corvos" - por causa do sua vestimenta negra - e os “'futricas" os não estudantes. Não nos esqueçamos que, neste tempo, a maior parte dos jovens não estudava, integrando, desde muito cedo, a forca de trabalho, no campo, nos serviços, nas pequenas oficinas.
     Essa rivalidade conduzia a lutas entre os dois grupos, normalmente travadas no Campo de Oliva, no espaço onde se criou, depois, o Jardim Público, que se situava atrás do Quartel instalado no antigo Convento de S. Francisco, a actual Pousada.   
     Nessas lutas valia tudo, desde a pedrada ao pontapé, do murro, às bengaladas, embora as consequências nunca fossem de grande gravidade. E era nessas lutas que a presença do aluno Baptista era determinante para a desfecho das contendas,
     Escreve Brito Camacho: "Quando o Baptista era do rancho, à certa que os futricas bebiam pela medida grande, porque ele valia, em força e desembaraço, por meia dúzia de companheiros".
     Também nos bailes, que se realizavam no adro do Mosteiro da Conceição, onde hoje está instalado a Museu Regional de Beja, a presença do Baptista era determinante. Se o Baptista ia, não faltava ninguém.
     Citando ainda Brito Camacho, a única fonte de informação que estamos a seguir sobre o estudante Baptista, "o rei António Maria, como lhe chamavam no meio escolar, era assim o braço forte da Academia arruaceira, assim uma espécie de Roldão ou Ferrabraz, por si só capaz de fazer frente a um regimento"
     De pequena estatura e não sendo propriamente um provocador de desordens, estava sempre pronto para zaragatas; o primeiro sopapo, o primeiro pontapé era sempre seu. Formava na vanguarda quando se ia para a luta; na retirada, vencido ou vencedor, era dos últimos, assegura Camacho.
     Menos valente era o António Maria nas matérias escolares. Brito Camacho, que classifica o colega como um aluno fraco mas aplicado, conta dele um episódio engraçado passado na aula de História.
     Nesse tempo a História e a Geografia estavam juntas numa mesma cadeira e o professor era o Sr. Gustavo - Gustavo Carlos de Sousa - empregado dos Correios. Um dia, o professor interrogou o aluno Baptista sobre a história de Roma. O aluno, fraco aluno mas que "empinava" os livros, lá foi dizendo o que se lembrava do que estava no compêndio. Só que, a certa altura, "embicou" - a expressão é de Camacho - no ponto em que no compêndio se dizia que César, tendo derrotado Pompeu, entrou em conflito com .o Senado que o conservava fora de Roma.
     Explicava o Baptista: "César então, vendo mal apreciados os seus serviços saiu de Hespanha e fez-se a caminho de Roma; chegando ahí..":'
     Como fizesse uma paragem demorada, o Sr. Gustavo interveio: "Está bem; César chegou a Roma. E o que fez?
     O aluno não tinha ideia nenhuma do que César fizera mas tendo percebido mal, qualquer coisa que um colega lhe dissera baixinho, saiu-se com esta: "Chegou a Roma e espantou o socego revoltado"
     Perante a enormidade do disparate, a turma ficou na expectativa do que se iria passar Mas nada aconteceu. Lembra Brito Camacho que o Sr. Gustavo não riu porque não costumava rir e os condiscípulos não riram porque o Baptista, como todos muito bem sabiam, não era para brincadeiras.
     À tarde, passeando na Praça de D. Manuel - a actual Praça da República - perguntou-lhe Brito Camacho, que era um amigo muito chegado, o que queria ele dizer com aquilo de "espantar o socego revoltado"
     "Eu sei lá o que queria dizer! ... Pareceu-me que tinha ouvido aquilo e disse-o. A minha vontade era pregar com o César na cara do Gustavo, e sair pela porta fora".

XOXOXOXOXOXOXOXO

     A sua carreira militar e os serviços prestados em África e na Grande Guerra levaram António Maria Baptista ao cargo de ministro da Guerra, no primeiro governo de Domingos Pereira, em 1919. Este governo, formado por democráticos, liberais e socialistas apenas se manteve no poder durante três meses. Mas, durante a sua vigência, o coronel Baptista deu provas de irredutível firmeza na manutenção da ordem pública. 

     No ano seguinte será o próprio coronel António Maria Baptista encarregado de formar governo, após algumas divergências no Partido Democrático.

Excerto alargado de um texto elaborado pelo professor Francisco Rosa Dias, docente da Escola Secundária Diogo de Gouveia e publicado no Alentejoilustrado do “Diário do Alentejo” de 13 de Junho de 2003.

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