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"Aprendi o mundo todo"
Chama-se Maria Isabel Covas. A cidade conhece-a. Tem 89 anos e é uma “menina”. Linda no seu imenso amor.
Aos três anos foi “raptada” pelo avô que a queria perto; ali a seu lado, mesmo enquanto dormia, para assim lhe transmitir falas e letras de amor e ternura. Para isso, para lhe comunicar os sonhos mágicos de uma memória de saberes antigos -- velhos tempos de outros sóis e outras raízes, quando aterra nobre e úbere escorregava pelos dedos do sonho.
Entra-se naquele edifício, recebido por uma cortesia feita de simplicidade e elegância. Somos convidados a percorrer as diversas salas e observa-se, com o espanto da luz que o dia filtra pelas frinchas das janelas, todo aquele caleidoscópio de objectos e horas antigas, ideias da infância e da juventude reduzidas, naturalmente, a ideograma de amor. Olham-se todos aqueles “lugares da memória”, diários íntimos, medalhas, poemas, porcelanas, livros, postais, bonecas (fontes pletóricas, lacunares,indispensáveis naquele lugar ali) e abismamo-nos com todas aquelas vidas preenchidas por coisas objectos silenciosos. E damos por nós a “ler” uma ou muitas páginas de Dickens. Naquelas salas a clepsidra eterna marca encontro com outros feitos de acasos, de ses, de todas essas quantidades de pormenores que constituem a vida humana.
Maria Isabel Covas. 89 anos. A Primeira Guerra Mundial, Guerra Civil de Espanha, Segunda Guerra Mundial, Guerra da Indochina, da Coreia do Norte, do Vietname, da Argélia. Milhões de mortos. Tristeza, fria, gelada sobre um mundo que dir-se-ia proibido. O advento da electricidade, da rádio, do telefone, da televisão, a evolução (?) constante de costumes; o cinema, o teatro, as classes sociais, os cuidados de beleza, a moda, Maio 68, Abril... Maria Isabel Covas, 89 anos. Uma vida cheia de amor. ”Amei todos, amei todos. Só acredito na amizade. Agora mesmo fiz dois amigos. Sim, nasci para amar. Para uma grande e imensa amizade. Tudo isto que me rodeia nasceu do amor. Assim tem sido conservado” Maria Isabel Covas, 89 anos. Uma menina para quem Deus não tem sido surdo. Para quem as noites estão cheias de anjos e a acordam encantada no seu próprio encantamento.
Maria Isabel. Aos 12 anos já ela ensinava. Pendor que lhe ficou pela vida fora. Pedagoga por intuição ensinava o valor das palavras num jogo de “palavra puxa palavra”: em verso. Um dia (todas as vidas têm um dia, uma hora, um momento de decisão maior) a escolha de umas meias azuis (era moda) levou-a ao encontro daquele que viria a ser o seu companheiro. E Maria Isabel conta a história do seu amor, da sua grande e imensa amizade.
Um encontro ou um encantamento, ali naquela casa onde a ternura fez domicílio?
Maria Isabel, ainda a Menina.
Conheceu Fernando Pessoa, ainda o acompanhou em várias refeições e sabe -- di-lo -- que uma grande amizade vale por todas as lâmpadas de Aladino e todas as babilónias mágicas. Claro, Maria Isabel: “ aprendeu o mundo todo”.
Um caleidoscópio de objectos e de tempos e de ideias a eles ligados oferece-nos um mundo dentro deste nosso mundo do quotidiano: um mundo que multiplica a aventura humana, de Beja ao Canadá, de Baleizão à Inglaterra em cartas de amizade e sentir. E a ideia de um tempo egocêntrico que então nos ocorre, onde passado, presente e futuro na dispersão das suas acções, é ainda a ideia da amizade que está patente. A amizade elevada à dignidade de significações ideais.
“Gostei de pobres e ricos, de mendigos e remediados. De todos tive à minha mesa”.
...E aqueles olhinhos despertos, rolando como dois sóis, ficam por vezes enevoados.

Não escolhera ser diferente. Amava o belo. Amava a vida. Gostava de desporto. De amazonas a representar, de figura destacada de quermesses e gincanas não se esquivou. Era assim porque gostava.
Encontrar o amor das coisas simples, transformar a monotonia do quotidiano numa festa dos sentidos, acompanhar a ternura consentida com uma profunda humanidade, ser generosa e igual a si própria, ter olhos para ver e coração para amar; eis Maria Isabel Covas. Ela soube sempre, por intuição, que na aventura da vida o único sentir importante é a entrega à totalidade da vida humana.
Leio, a propósito, Allan Watts. Assim: “Não procurem ser santos. Contentem-se em ser humanos porque a verdadeira santidade é um dom divino que, quando se tenta imitar, se torna numa flor de plástico”.
Maria Isabel não quis ser santa. Apenas mulher. Aquela a quem alguns moços ofereceram uma bela rosa do jardim de Beja, que o jardineiro de então tinha reservado para o Governador Civil
Uma rosa para Maria Isabel Covas. Hoje e sempre. Também nós fizemos mais um amigo. Uma rosa no jardim da ternura.
(Texto do jornalista Miguel Serrano, extraído do Diário do Alentejo de 15 de Maio de 1992)
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